Artigos Segunda-Feira, 02 de Julho de 2018, 09h:18 | - A | + A

ROBERTO DE BARROS FREIRE

Questões eleitorais

ROBERTO DE BARROS

 

Os números mais significativos das próximas eleições se referem ao imenso número de votos nulos e brancos, além da estrondosa margem de abstenções, como apontam as pesquisas. As recentes eleições de Tocantins dão mostras que nossos “representantes” representarão parcelas minoritárias da população.

 

O governador e seu “oponente” nesse Estado não conseguiram obter nem 50% dos votos da sociedade de Tocantins. Ou seja, para a maioria da população os políticos não as representam, nem tem esperanças de que possam representá-la.

 

Esse desencanto e desalento vêm num crescendo desde a redemocratização, e é possível que nas eleições de outubro o índice de participação seja pequeno por parte dos eleitores e o número de votos nulos e brancos francamente superiores aos votos conquistados pelos eleitos. O fato é que o número de votos nulos e brancos supera em muito as intenções dos votantes nos candidatos conhecidos. Quem está vencendo as eleições é a falta de esperança nos políticos e nos partidos.

 

A democracia foi usurpada pelos partidos políticos, que tiranizam a sociedade civil.

 

Não é apenas um modo de protestar, quando se anula ou se vota em branco, ou mesmo se abstendo, dando um recado claro e cristalino aos partidos, mas a prova concreta que esse sistema eleitoral está esgarçado, e que não serve a população nacional. A legislação eleitoral não serve aos eleitores, apenas aos eleitos; não privilegia nossas possibilidades de escolha, mas a tiraniza para escolhas dos partidos majoritários no congresso.

 

E não há melhoras à vista, apenas mais do mesmo. Eis porque as pessoas estão cada vez mais anulando seu voto ou votando em branco, ou nem indo votar; seja lá quem seja eleito, não nos representará.

 

O fato é que a forma que inventaram para as eleições nacionais servem aos partidos políticos já existentes, e não permitem o surgimento do diferente, de novas posições políticas. A própria maneira de se criar partidos políticos no país não permitem outra alternativa a não ser se coadunar as regras por eles estabelecidos.

 

Tudo está errado, a começar pela forma de financiamento dos partidos, que era um equívoco profundo quando havia financiamento pelas empresas (pois partidos representam pessoas, cidadãos, não instituições econômicas ou sociais), e continua de forma piorada com o financiamento estatal. Ora, partidos são associações livres e voluntárias de cidadãos, como igrejas e clubes esportivos, e devem ser financiadas pelos seus crentes ou torcedores, ou mesmo adeptos.

 

A organização partidária no país é feita para se ter acesso a esse financiamento estatal, que é uma extorsão da sociedade civil em prol de particulares e privados, e eis porque complicam e burocratizam a fundação de partidos políticos. Além disso, impedem que haja candidaturas avulsas, autônomas e livres.

 

Além disso, ao se fazer o voto obrigatório, uma tirania do voto, não se obrigam a serem sequer simpáticos aos eleitores, já que estamos obrigados a ter que escolher. E as escolhas tem sido entre os menos ruins, nunca entre os melhores, pois que esses estão impedidos de aparecerem, visto que a forma como estão organizadas as eleições, os candidatos tem que se comprometer com a máquina política, não com sociedade civil. Para a sociedade promessas vagas, para os partidos compromissos sérios e clandestinos.

 

O fato é que nos cansamos de ter que escolher o menos ruim, cansamos de ouvir uma velha ladainha sem compromissos sérios com a sociedade. Estamos cansados dos políticos e dos partidos existentes, sem ideologias ou posições claras, que falam uma coisa aos eleitores e outra coisa no congresso ou nas votações.

 

Estamos cansados de sermos obrigados a ter que participar de uma farsa eleitoral e democrática, pouco republicana, onde só se pode escolher entre os canalhas e bandidos escolhidos pelos partidos, sem que o povo possa escolher seus legítimos representantes.

 

É preciso urgentemente uma reforma política feita pelos cidadãos, não pelos políticos. É preciso dar o direito de votar, não o dever, o direito de abstenção. É preciso fazer com que a política não tenha custos econômicos para a sociedade e tão somente aos partidos. É preciso deixar que as pessoas criem seus partidos sem custos ao Estado ou à sociedade, e que haja candidaturas avulsas de pessoas não partidárias.

 

ROBERTO DE BARROS FREIRE é Professor do Departamento de Filosofia/UFMT.

rdefreire@uol.com.br

VOLTAR IMPRIMIR

COMENTÁRIOS

Copyright 2018 PNB ONLINE - Todos os direitos reservados. Logo Trinix Internet